Agricultura brasileira cultivando no nível HARD

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Pense na seguinte situação: um território quase totalmente dominado por solos ácidos. Ou seja, baixa saturação de bases, com consequente pequena capacidade de troca catiônica, atividade de argila quase nula e ainda por cima um alto teor de Al+3 tóxico. Some a isso uma variedade imensa de pragas: insetos, doenças, plantas daninhas, etc. Acrescente um clima altamente intemperizado, com chuvas frequentes e altas temperaturas. Olhando por este lado parece um cenário desolador, totalmente incapaz de produzir qualquer alimento. Mas são as terras da agricultura brasileira. Sim, o Brasil, um dos maiores produtores de grãos do mundo cultiva o alimento diante a todas essas limitações naturais. Mas como foi possível contornar todos estes obstáculos? A pesquisa, aliada a vontade de muitos agricultores e técnicos em melhorar os níveis de produção com sustentabilidade foram fatores preponderantes para o sucesso.

Representação gráfica do pH do solo, cores vermelhas representam solos ácidos que cobrem aproximadamente 70% das terras agricultáveis do país. (Gráfico: Leon Kochian)

Representação gráfica do pH do solo, cores vermelhas representam solos ácidos que cobrem aproximadamente 70% das terras agricultáveis do Brasil. (Gráfico: Leon Kochian)

A técnica do plantio direto na palha, ato de semear diretamente sobre a palhada da cultura antecessora sem revolver o solo, consistiu em um marco importantíssimo para o desenvolvimento da produção agrícola brasileira. Introduzido no início dos anos 70, a técnica dentre vários benefícios, permitiu principalmente minimizar e até eliminar a longo prazo os problemas com erosão do solo causada pelo seu revolvimento. A manutenção da palha sobre a superfície não revolvida, permite a manutenção da estrutura do solo, que é responsável por manter os níveis de matéria orgânica.

A técnica de plantio direto tem sido de fundamental importância na agricultura de climas tropicais. (Foto: Thiago Inagaki).

A técnica de plantio direto tem sido de fundamental importância na agricultura de climas tropicais. (Foto: Thiago Inagaki).

Nos Estados Unidos por exemplo, a prática da aração do solo para controle de plantas daninhas, pragas e doenças consiste em um dos principais e mais eficientes métodos utilizados, sendo comum em várias regiões do país. Devido aos altos teores de matéria orgânica do solo aliado ao clima ameno da região, o revolvimento acaba por não trazer tantos prejuízos à estrutura do solo e evitando até mesmo a compactação do solo. No Brasil por outro lado, a prática de aração do solo se mostrou inviável ao longo do tempo, devido aos grandes problemas com erosão causados pela prática em nosso clima tropical. Assim, tivemos que partir para métodos de controle alternativos. Além disso, altos teores de capacidade de troca catiônica devido à alta atividade de argila (denominadas argilas 2:1) permitem para os americanos e habitantes de demais climas temperados, uma alta e natural disponibilidade de nutrientes para as plantas. Enquanto CTCs de 10cmolc dm-3 no Brasil já são consideradas altas, nos Estados Unidos é comum encontrar CTCs naturais de até 80 cmolc dm-3.

O plantio convencional se mostrou uma técnica inviável para produção agrícola no Brasil devido aos constantes problemas causados pela degradação do solo (Foto: Embrapa Hortaliças).

O plantio convencional se mostrou uma técnica inviável para produção agrícola no Brasil devido aos constantes problemas causados pela degradação do solo (Foto: Embrapa Hortaliças).

Para os climas tropicais, a rotação de culturas associada ao próprio plantio direto vem se destacando como uma das principais técnicas para realizar o controle sustentável de pragas e doenças, além de proporcionar as condições ideais de qualidade do solo. O controle químico através dos pesticidas, porém, tem sido o mais utilizado devido a sua praticidade e efeito a curto prazo. A pressa e imediatismo por parte dos agricultores, assim, tem levado a diversos problemas na agricultura.

É nítido que a condução dos campos de produção nos climas tropicais e subtropicais enfrentam grandes obstáculos e condições naturais pouco favoráveis se comparado aos climas temperados. A participação do Agrônomo auxiliando o produtor, dessa forma, se torna ainda mais fundamental para a condução da agricultura e produção de alimentos em nosso país.

 

* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO.

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Mestre em Agricultura (Uso e Manejo do Solo) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Trabalha na área de matéria orgânica do solo com enfoque em plantio direto e sequestro de Carbono.

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