Agricultura brasileira e o aquecimento global

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Este ano tivemos um dos mais importantes encontros de nações em Paris na França, a COP 21, onde líderes de governos de todo o mundo se reuniram para discutir como frear o aquecimento global. Diante desse fato, esse artigo trata de uma visão geral do evento, e como a agricultura, especialmente a brasileira, se encaixa dentro desse panorama. Dentre os temas abordados destacam-se: qual é a contribuição da agricultura para o aquecimento global? O que o Brasil tem feito para frear as emissões de gases na agricultura? Como está o uso de práticas agrícolas conservacionistas atualmente? O que precisamos fazer para promover uma agricultura mais sustentável?

 

O problema do aquecimento global

Fato é: a temperatura do planeta Terra tem aumentado nas últimas décadas, gerando uma série de impactos ambientais preocupantes para toda a população global. O motivo: aumento incessante dos chamados gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. O efeito estufa, fenômeno natural responsável por manter nosso planeta aquecido, tem sido aumentado significativamente por atividades antrópicas, principalmente pela indústria e automóveis.

Até hoje, a humanidade já emitiu cerca de 500 bilhões de toneladas de carbono (C) na atmosfera, elevando a temperatura do planeta em aproximadamente 1ºC. Um aumento acima de 2ºC é considerado perigoso. Dessa forma, nossa “cota” de emissões de C daqui para frente, deve se restringir a níveis inferiores a esses 500 bilhões de toneladas restantes, se quisermos manter o aquecimento dentro dos limites desejados.

 

Evolução da emissão dos gases do efeito estufa para atmosfera nas últimas décadas. Fonte: IPCC

Evolução da emissão dos gases do efeito estufa para atmosfera nas últimas décadas. Fonte: IPCC

 

A COP 21

É por este motivo que este ano, 195 países (praticamente o mundo inteiro) se reuniram na COP 21 em Paris, com o objetivo de discutir medidas para frear o aquecimento global e reduzir as emissões de GEE. A principal meta do encontro foi estabelecer medidas para manter o aquecimento do planeta abaixo do limite de 2ºC, e se possível, abaixo de 1,5ºC, que é considerado o ideal. Dentre as principais tarefas as serem cumpridas para manter a temperatura dentro desse limite, destacam-se a redução da queima de combustíveis fósseis, aumento da utilização de fontes de energia renováveis (eólica, solar, hidráulica, biocombustíveis…) mudança no manejo da agricultura e redução do desmatamento. Países mais desenvolvidos já se comprometeram a custear 100 bilhões de dólares por ano em ações nos países em desenvolvimento entre 2020 e 2025 e todas as nações se comprometeram a tomar medidas para reduzir o aquecimento do planeta.]

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Logo da COP21. http://www.cop21paris.org/

 

O acordo salva o planeta?

Apesar do significativo avanço conquistado na COP 21, muitas lacunas ainda estão abertas. O acordo não estabelece, por exemplo, quanto das emissões será cortada ao longo do prazo, nem se “vai dar tempo” de reduzir as emissões para manter o aquecimento dentro do limite estabelecido. O IPCC estima que as emissões precisam ser cortadas em média entre 70 a 90% em 2050 para a elevação ficar abaixo de 2ºC, uma meta bem desafiadora. Segundo o jornalista ambiental André Trigueiro, “O acordo do Clima aprovado em Paris não resolve o problema do aquecimento global, apenas cria um ambiente político mais favorável à tomada de decisão para que os objetivos assinalados formalmente por 196 países seja alcançado”.

 

A contribuição da agricultura brasileira no aquecimento global

Em um panorama global, a agricultura contribui com cerca de 23% das emissões de GEE, sendo 92% do N2O, 65% do CH4 e 26% do CO2. Grande parte das emissões de CO2 são provenientes do desmatamento e conversão para áreas agrícolas. Já o N2O (óxido nitroso) e CH4 (gás metano) são originados principalmente do cultivo de arroz e criação animal respectivamente.

Principais fontes de emissões na agricultura de Dióxido de Carbono, Óxido Nitroso e Gás Metano para atmosfera

 

No Brasil, por outro lado, cerca de 75% do CO2 e 90% do N2O e CH4 são provenientes da agricultura.

Principais fontes das emissões de dióxido de carbono, óxido nitroso e gás metano na agricultura

Cerca de 75% do CO2 e 90% do N2O e CH4 são provenientes da agricultura.

 

A maior parte do CO2 emitido pelo Brasil é proveniente do desmatamento da Floresta Amazônica. Zerar o desflorestamento e restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, aliás, foi um dos comprometimentos do país na COP 21. O Brasil tem como principal objetivo reduzir em 37% até 2025, e em 43% até 2030, as emissões de GEE. Apesar da meta ousada, o Brasil de julho de 2014 a agosto de 2015 teve o desmatamento amazônico aumentado em 16%, com uma área de aproximadamente 5800 km2, equivalente ao tamanho do estado de Brasília – DF. Um esforço maior do que o desempenhado pelo governo no último ano, portanto, será necessário visando cumprir a meta estabelecida.

 

O que o Brasil tem feito para reduzir as emissões na agricultura?

No final de 2009, durante a COP 15, o Ministério da Agricultura lançou o programa de agricultura de baixo carbono (Plano ABC), visando estimular práticas de manejo que contribuam para a menor emissão de CO2 proveniente da agricultura. O principal objetivo do setor agropecuário é reduzir as emissões de GEE por produto agrícola produzido, além de aumentar ao máximo as mitigações de gases, principalmente o CO2, através do uso de práticas conservacionistas como o plantio direto. Dentre as propostas apresentadas pelo projeto para a agricultura, destacam-se a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, aumento do uso de sistema integração lavoura-pecuária-floresta, ampliar o uso do sistema de plantio direto em 8 milhões de hectares e promover a fixação biológica de nitrogênio em 5,5 milhões de hectares.

Plano ABC

O país tem demonstrado em diversas regiões, especialmente no estado do Paraná, o potencial conservacionista dessas técnicas, especialmente o plantio direto. Diversas áreas agrícolas mantidas sob cobertura do solo permanente, sem revolvimento, aliado a diversificação de espécies na rotação de culturas, tem demonstrado altos índices produtivos além da conservação do meio ambiente e mitigação de CO2 atmosférico. No entanto, ao contrário do que se pensa, este é um exemplo encontrado em poucas propriedades, e a meta de se conduzir um plantio direto de qualidade em grande parte das áreas agrícolas no Brasil ainda está longe do ideal.

 

30 milhões de hectares sob plantio direto, um dado demasiadamente otimista.

Segundo a Federação Brasileira de Plantio direto na Palha, o uso do plantio direto no país tem crescido exponencialmente, e atualmente o Brasil conta com mais de 30 milhões de hectares sob o uso da prática.

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Evolução do Sistema Plantio Direto. Clique na imagem para aumentar.

Diante desse dado, a impressão que temos é que o país está no ápice da conservação dos solos, afinal temos a segunda maior área de plantio direto do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A realidade é que grande parte desses 30 milhões de hectares, fazem uso de um “plantio direto”, entre aspas.

A técnica de plantio direto na palha, é calcada majoritariamente em três princípios: 1- Não revolvimento do solo, 2- Cobertura permanente do solo e 3- Rotação de pelo menos 3 culturas por ano na mesma área. São apenas três regras, mas quem faz parte do meio agrícola sabe que o respeito desses três princípios básicos é a realidade de poucas propriedades no país. O revolvimento eventual do solo, muitas vezes realizado sem critério, a monocultura de soja e o baixo aporte de biomassa sob a superfície do solo é a realidade de grande parte desses 30 milhões de hectares sob “plantio direto”, que muitas vezes apresentam problemas com erosões e degradação do solo.

Propriedades agrícolas que fazem o uso correto da técnica, portanto, se limita a uma pequena porcentagem dessas áreas. A exigência de resultados econômicos a curto prazo, o excesso de ganância por muitos agricultores e a falta de conhecimento por parte deles sobre o uso adequado das técnicas conservacionistas são alguns dos vários motivos que nos levam a essa realidade.

O uso do plantio direto praticado por grande parte das áreas agrícolas no Brasil, portanto, precisa ser melhorado. Um grande esforço por parte da comunidade técnica e científica no Brasil tem sido empenhado para incentivar o melhor uso das práticas de agricultura conservacionista. Os avanços, no entanto, crescem a passos curtos, e muito mais esforço deverá ser desprendido para se alcançar melhores índices de sustentabilidade na nossa agricultura.

 

Conclusões

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Clique na imagem e conheça.

A redução da emissão dos gases do efeito estufa no mundo é com certeza um dos maiores desafios da humanidade nas últimas décadas.  A diminuição do aquecimento global exige muitos sacrifícios principalmente econômicos de várias nações. As metas estabelecidas
são ousadas e desafiadoras, muito esforço será necessário para manter os níveis de aquecimento dentro dos estabelecidos. A busca pelo crescimento econômico desenfreado sem se preocupar com as questões ambientais é o que nos levou a esta realidade preocupante, e a agricultura não se encaixa fora dessa questão.

Muitos esforços e conquistas têm sido reconhecidos em relação a adoção de práticas de agricultura conservacionistas no nosso país, porém, com um cenário atual ainda longe do esperado. Diante dessa situação, tapar os olhos acreditando que já atingimos o ápice da sustentabilidade na agricultura é não querer enxergar a realidade. O papel do Eng. Agrônomo, juntamente com os pesquisadores e agricultores para o desenvolvimento de uma agricultura conservacionista é essencial. A busca por técnicas que aliem altas produtividades e ao mesmo tempo, conservação do solo e da água, proporcionará um mundo melhor para as futuras gerações. Esperamos assim que a humanidade tome as atitudes necessárias para promover um mundo produtivo, porém sustentável, antes de percebermos que já é tarde demais para isso.

 

Referências

 

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* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO.

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Mestre em Agricultura (Uso e Manejo do Solo) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Trabalha na área de matéria orgânica do solo com enfoque em plantio direto e sequestro de Carbono.

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