Agricultura de baixo carbono para mitigar o aquecimento global

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As emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera têm crescido em ritmo acelerado desde a revolução industrial no planeta. Dessa forma, estratégias para frear o avanço do aquecimento global tem sido um dos assuntos mais discutidos pela comunidade internacional.

Na recente COP 21, representantes do mundo todo se reuniram para discutir estratégias para prover a mitigação do efeito estufa. Para o Brasil, a utilização do sistema plantio direto se destaca como uma das principais frentes do desenvolvimento da agricultura de baixo carbono .

Duas das maiores fontes de emissão de C para atmosfera se deve:

1) ao desmatamento e queima de vegetações nativas;

2) à queima de combustíveis fósseis para geração de energia (de Moraes Sá et al., 2016).

Somente o desmatamento das regiões da Amazônia e Cerrado contribuem com cerca de 0.34 Pg C ano-1 (1Pg = 1 bilhão de toneladas) (Gloor et al., 2012). No entanto, o solo também possui um potencial expressivo em realizar a mitigação principalmente do CO2 através dos sistemas de manejo de conservação.

A seguir, discutiremos brevemente como a agricultura de conservação, especialmente em regiões tropicais e subtropicais, podem auxiliar no controle e redução do aquecimento global.

agricultura de baixo carbono

Figura 1: Desmatamento de florestas de vegetação nativa consiste em uma das principais fontes de C para atmosfera das atividades de uso e manejo do solo. Foto: blog.conservation.org

As incertezas a respeito do potencial da agricultura de baixo carbono

O sistema plantio direto tem se destacado como uma das principais estratégias da agricultura de baixo carbono em proporcionar altos níveis de produtividade agrícola aliada a preservação do solo. No entanto, a capacidade de mitigação dos gases do efeito estufa por práticas conservacionistas tem gerado muito debate na comunidade científica.

Muitos trabalhos levantam dúvidas a respeito do potencial dos sistemas em promover esse benefício devido a motivos como:

1) a capacidade de mitigação do solos não é infinita (Powlson et al., 2016) ;

2) o efeito do plantio direto em escala global devido as diferenças de qualidade dos sistemas é variável (Pittelkow et al., 2015);

3) a dificuldade em contabilizar o potencial da prática em escalas maiores devido a complexa variedade de características dos solos (Adenle et al., 2015);

4) altos riscos de re-emissão do C sequestrado, uma vez que únicas operações de revolvimento do solo podem emitir grandes quantidades de CO2 (Sá et al., 2014);

5) grande incerteza a respeito da qualidade dos sistemas de conservação adotados ao redor do mundo (Kassam et al., 2015).

Podemos observar, dessa forma, que o estudo e contabilização do potencial de práticas de uso e manejo do solo na emissão e sequestro de C atmosférico é extremamente complexo.

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Figura 2: Contabilização do potencial de práticas de uso e manejo do solo no sequestro e emissão de carbono é complexa devido a grande variação de qualidade dos sistemas e das propriedades do solo. Foto: semillanueva.org

O potencial da América do Sul na mitigação de gases do efeito estufa

A América do Sul contabiliza cerca de 10,3% (160 Pg de C, prof 0-100 cm) do estoque de C do mundo, é responsável por cerca de 21% da produção de carne mundial (335 milhões de toneladas de carne bovina) e abriga aproximadamente 5,7% da população mundial (0,419 bilhões de pessoas)  (de Moraes Sá et al., 2016). No estudo desenvolvido por de Moraes Sá et al. (2016), os autores fizeram uma revisão completa sobre o potencial do continente em promover a mitigação do efeito estufa através da agricultura de baixo carbono.

Na figura abaixo, podemos observar as principais fontes e drenos de C proveniente das diversas atividades humanas. Das atividades de uso e manejo do solo na América do Sul, a restauração de pastagens degradadas, seguida pela utilização de sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e o plantio direto representam os principais potenciais de mitigação de C.

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Figura 3: Emissões e drenos de carbono no planeta e o potencial de sequestro da agricultura de baixo carbono na América do sul. Fonte: de Moraes Sá et al. (2016).

No caminho da sustentabilidade alimentar

De acordo com os autores, a contribuição das três principais atividades mencionadas da agricultura de baixo carbono é equivalente a cerca de 80% das emissões globais das atividades de uso e manejo do solo. Dessa forma, as ações combinada de tais sistemas podem resultar em uma contribuição sinérgica, consistindo em uma importante parte da solução para as mudanças climáticas e sustentabilidade alimentar.

Quer saber mais detalhes sobre o papel da agricultura de conservação na sustentabilidade alimentar? Acesse a coletânea de textos sobre plantio direto no blog e saiba mais. O texto completo da revisão mencionada no texto também pode ser encontrado neste link.

 

Referências

Adenle, A.A., Azadi, H., Arbiol, J., 2015. Global assessment of technological innovation for climate change adaptation and mitigation in developing world. Journal of environmental management 161, 261-275.

de Moraes Sá, J.C., Lal, R., Cerri, C.C., Lorenz, K., Hungria, M., de Faccio Carvalho, P.C., 2016. Low-carbon agriculture in South America to mitigate global climate change and advance food security. Environment International.

Gloor, M., Gatti, L., Brienen, R., Feldpausch, T., Phillips, O., Miller, J., Ometto, J., Rocha, H., Baker, T., De Jong, B., 2012. The carbon balance of South America: a review of the status, decadal trends and main determinants. Biogeosciences 9, 5407-5430.

Kassam, A., Friedrich, T., Derpsch, R., Kienzle, J., 2015. Overview of the worldwide spread of conservation agriculture. Field Actions Science Reports. The journal of field actions 8.

Pittelkow, C.M., Liang, X., Linquist, B.A., Van Groenigen, K.J., Lee, J., Lundy, M.E., van Gestel, N., Six, J., Venterea, R.T., van Kessel, C., 2015. Productivity limits and potentials of the principles of conservation agriculture. Nature 517, 365-368.

Powlson, D.S., Stirling, C.M., Thierfelder, C., White, R.P., Jat, M., 2016. Does conservation agriculture deliver climate change mitigation through soil carbon sequestration in tropical agro-ecosystems? Agriculture, Ecosystems & Environment 220, 164-174.

Sá, J.C.d.M., Tivet, F., Lal, R., Briedis, C., Hartman, D.C., dos Santos, J.Z., dos Santos, J.B., 2014. Long-term tillage systems impacts on soil C dynamics, soil resilience and agronomic productivity of a Brazilian Oxisol. Soil and Tillage Research 136, 38-50.

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Mestre em Agricultura (Uso e Manejo do Solo) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Trabalha na área de matéria orgânica do solo com enfoque em plantio direto e sequestro de Carbono.

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