AgroPro Monitor: do campo para a tecnologia

0
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 0 Flares ×
agropro monitor

O ano é 1987. Rui Scaramella Furiatti, professor de entomologia aplicada na Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, e consultor agrícola, abraça um projeto ambicioso: dar suporte a um grupo de agricultores para começar o plantio na primeira fazenda da Chapada Diamantina, na Bahia.

O plano para a Fazenda Bagisa era plantar hortaliças e os resultados foram melhores do que o esperado. Mas a distância de 2076 quilômetros, percorrida muitas vezes de carro em quase 30 horas de viagem, impôs uma necessidade: acompanhar à distância o desenvolvimento das culturas​, fazer o manejo integrado de pragas e dar a orientação necessária no menor tempo possível. “No começo, rabisquei uma tabela no papel e ia alimentando com os dados que o pessoal da fazenda passava por telefone, que funcionava pelo rádio da fazenda”, conta Rui.

O então professor já era um entusiasta do Manejo Integrado de Pragas (MIP), uma técnica que mantém as pragas sempre abaixo do nível em que causam danos econômicos às lavouras. O controle é feito por meio da rotação de culturas, controle biológico (inimigos naturais), uso de armadilhas, variedades resistentes e aplicação de defensivos estritamente quando necessário. O objetivo principal é diminuir o uso desses químicos, o que por consequência traz um custo menor, menos perdas na produção e resulta em produtos mais saudáveis para o consumo e seguro para o meio ambiente.

O aperfeiçoamento 

Já na década de 1990, o sistema criado por Rui começou a ser aperfeiçoado: a tabela passou do papel para uma planilha no Excel, com as informações enviadas por e-mail. Na década seguinte, o número de culturas monitoradas aumentou. No início, era apenas utilizado em crucíferas e na sequência para o tomate. Outras fazendas que eram clientes de Furiatti começaram a utilizar o mesmo sistema de acompanhamento, na região dos Campos Gerais no Paraná, no Triângulo Mineiro e em Goiás.

Em 2003, a coleta dos dados ganhou o reforço dos palmtops: com um aparelho parecido com o celular, os funcionários das fazendas anotavam direto do campo na planilha do SisMy, que ao fim do dia era sincronizado via cabo e enviava as informações por e-mail. Quando chegavam ao sistema, elas eram interpretadas por Rui e transformadas em gráficos que ajudavam a tomada de decisão sobre como resolver os problemas de pragas na lavoura. Tudo isso de três em três dias. A essa altura, foram incluídas as culturas de batata, crucíferas, soja e milho.

A tecnologia como aliada

A tecnologia foi uma aliada constante do sistema que viria a se tornar o AgroPro Monitor. Graças à visão vanguardista de Furiatti, em 2012 o sistema começou a ser desenvolvido em Java e teve o primeiro salto de inovação. Já estava em funcionamento, monitorando diversas culturas em alguns cantos do Brasil, mas sempre para os clientes diretos da consultoria. Nesse ponto da história, outro personagem teria papel fundamental: Vicente Furiatti, filho de Rui e também engenheiro agrônomo, já estava imerso no ambiente de inovação, empreendendo com educação a distância na área da agricultura.

AgroPro Monitor: um novo negócio

Em 2016, quando Rui esteve no escritório do filho em busca de auxílio para integrar o georreferenciamento ao sistema, não imaginava que sairia de lá com um sonho ainda maior e a fundação de um novo negócio. Nascia ali o AgroPro Monitor. Durante esse processo, o sistema foi remodelado, a linguagem modificada totalmente, a parte técnica incrementada e o visual repaginado. “Nesse momento, entendi que alguns processos poderiam ser melhorados e automatizados, novas tecnologias nos permitiriam melhorar e escalar esse monitoramento, atendendo ainda mais agricultores, todas as principais culturas”, explica Vicente.

A plataforma começou a ser comercializada no final de 2018 e já monitora mais de 60 mil hectares​. A Myzus, consultoria de Rui, é cliente da AgroPro e o cerne do melhoramento técnico do sistema, junto com outros pesquisadores independentes.

Startup caipira em expansão

O grande diferencial da AgroPro – que começou como startup e já está em fase de expansão – é o olhar que veio do campo para a tecnologia​. “Não foi um programa criado dentro de uma startup para depois atender a agricultura, foi justamente o contrário, desenvolvido em conjunto com produtores, ouvindo os agrônomos e equipes de campo destas fazendas. Na época não havia pretensão nenhuma em transformar o sistema em um negócio. O desejo era de apenas resolver a situação do Manejo de Pragas no campo”, afirma Vicente. “O AgroPro Monitor tem origens, é um caipira legítimo que nasceu no campo e veio de butina”, complementa Rui, que agora está aposentado da sala de aula e é diretor científico da plataforma.

O desafio aceito pela equipe foi escalar o conhecimento técnico acumulado para torná-lo acessível a todos os produtores rurais e agrônomos. Com o respaldo de algoritmos específicos, o monitoramento resulta em uma orientação especializada. “Nosso acompanhamento não é generalizado, traz uma visão única para cada cultura; afinal a relação de uma mesma praga que ataca soja e feijão tem efeitos diferentes e a plataforma leva isso em consideração”, explica.

Relação com o cliente

Os clientes do AgroPro Monitor fazem uma assinatura anual, calculada com base na área em hectares e no tipo de cultura. São em sua maioria grandes produtores, considerados modelo no Brasil por sua visão inovadora. Para o então gerente agrícola da Montesa Agropecuária, Carlos Alberto, o sistema veio para racionalizar o uso dos defensivos. “A gente só aplica os defensivos no momento adequado e o produto adequado”.

Ao aliar a tecnologia ao conhecimento técnico acumulado por Rui durante anos de pesquisa aplicada, os resultados são expressivos​: o produtor rural economiza nos custos com defensivos, emprega com mais facilidade os biodefensivos e ainda reduz substancialmente o impacto ambiental​. A cultura do tomate, por exemplo, consumiu até 50% menos defensivos no primeiro ano de utilização. “É muito importante frisar que o objetivo do monitoramento não é tomar o lugar do agrônomo, muito pelo contrário: é fornecer instrumentos importantes para que ele possa tomar a melhor decisão”, reforça Rui.

Os dados são alimentados pelos inspetores de campo, que seguem metodologias específicas para coleta de dados e precisam obrigatoriamente estar in loco na propriedade. Nesse ponto, o GPS é essencial para garantir a fidelidade das informações repassadas ao sistema. O acompanhamento segue, geralmente, feito de três em três dias, fornecendo uma leitura real do desenvolvimento das pragas encontradas na lavoura. Com base nas informações processadas, o AgroPro Monitor traça níveis de ação, as possibilidades de manejo e o profissional decide o que fazer. Por isso, a assinatura da plataforma pode ser feita tanto pela própria fazenda quando pelos consultores agrícolas que quiserem tornar o atendimento de seus clientes ainda mais especializado.

Desenvolvimento constante

O programa está em constante desenvolvimento, é “vivo” como explica Furiatti. “A tecnologia ninguém nunca consegue saber até onde vai, mas imaginar que o que começou com aquela tabela de papel chegaria até aqui, com tantas pessoas envolvidas, é uma realização pessoal que ainda não terminou”, diz. E o reconhecimento já começa a aparecer. Todos os clientes que já usavam o SisMy há mais de quinze anos se adaptaram bem aos avanços tecnológicos proporcionados pelo AgroPro Monitor.

Ao ser perguntado sobre onde imagina que o AgroPro Monitor pode chegar, Rui responde com a empolgação de quem sempre teve um olhar inovador para o futuro: ​“Qual a área nacional agricultável?”

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 0 Flares ×

Sobre o Autor

Comentários no Facebook