Por que não devemos confiar apenas na análise química para avaliar a qualidade do solo?

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Análise química e qualidade do solo

Muitos já estiveram diante da seguinte situação: duas áreas agrícolas com o mesmo tipo de solo, com análises químicas mostrando basicamente os mesmos teores de nutrientes. Porém uma delas possui índices de produção muito maiores que a outra. Ora, se o teor de nutrientes e o tipo de solo é o mesmo, por que afinal uma produz mais que a outra? O fato é que a análise química do solo nos mostra apenas uma pequena fração do que ocorre neste ambiente extremamente complexo e fascinante que é o solo.

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O que de fato conduz a produtividade das culturas agrícolas?

O que de fato conduz a produtividade das culturas agrícolas? Solo bem nutrido é garantia de boa produtividade?

Uma área agrícola pode até possuir os nutrientes necessários para o crescimento das plantas no solo. Porém, será que tais nutrientes estão realmente disponíveis para absorção das plantas? Será que as condições físicas do solo permitem o crescimento radicular para que esses nutrientes sejam absorvidos? Será que os métodos utilizados para se determinar esses nutrientes do solo foram apropriados? Será que a coleta do solo não interferiu na análise química? Será que o laboratório que fez as análises é realmente confiável? Essas são apenas algumas das inúmeras perguntas que podemos fazer ao analisar este fato. Para cada um desses fatores existem pesquisas para se avaliar as suas respectivas influências sobre a produção agrícola. Portanto, os nos números presentes nas tabelas de fertilidade do solo, não devem ser o único fator no qual nós devemos nos basear para avaliar a qualidade de um sistema agrícola.

A qualidade dos solos é definida por detalhes e vai muito além do conteúdo de nutrientes

A qualidade dos solos é definida por detalhes que vão muito além do conteúdo de nutrientes

Os solos possuem atributos das mais diversas naturezas. Podemos classifica-los como atributos físicos, químicos e biológicos. Dentre inúmeros atributos físicos, podemos citar um exemplo: a agregação do solo. Em um agregado podemos avaliar mais uma infinidade de coisas: a estabilidade, a resistência tênsil, taxas de infiltração de água, os estoques de carbono e nitrogênio, a influência do seu tamanho na proteção do carbono do solo, etc. Somamos ao fato que cada um desses fatores está interligado com os demais atributos biológicos e químicos do solo,  e que a mudança de cada um deles influencia todas as demais características do solo. Todos esses fatores e atributos juntos, de forma interligada, governam as propriedades do solo e portanto definem as condições em que as plantas irão crescer. Perceberam a complexidade do sistema? Mas estamos falando apenas dos solos por enquanto, ainda temos que considerar o fator planta no sistema.

As interações entre solo e planta envolve ao menos 18 nutrientes responsáveis pelo crescimento da planta e também para a saúde humana. A agricultura de conservação é um fator-chave na produção sustentável de alimentos no mundo. Fonte: FAO

As interações entre solo e planta envolve ao menos 18 nutrientes responsáveis pelo crescimento da planta e também para a saúde humana. A agricultura de conservação é um fator-chave na produção sustentável de alimentos no mundo. Fonte: FAO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As plantas responderão a essas incontáveis características do solo de incontáveis maneiras dependendo de inúmeros fatores como genótipo da planta, espécie, controle de plantas daninhas, pragas, doenças, luminosidade, temperatura, umidade, fotoperíodo, e mais MUITOS, mas MUITOS fatores interferindo nessa complexa relação solo- planta. Quando realizamos um estudo mais específico na agricultura, muitas pessoas ao observar a pesquisa com um olhar mais leigo, podem acha-la banal, por que afinal estudar a ligação entre partículas atômicas de cálcio ligadas ao carbono em agregados de 8 mm de solos com calcário? Talvez porque essa ligação conduza a união de partículas primárias do solo, que por sua vez conduzem o aumento de agregados do solo, cuja formação induz a maior proteção da matéria orgânica e que por fim leva ao aumento da produtividade agrícola. Essa união em nível atômico entre cálcio e carbono, dessa forma, pode ajudar a explicar benefícios da prática que vão além da correção da acidez e da redução do Al tóxico. Este é apenas um dos diversos exemplos de como ainda existem muitos assuntos a serem descobertos no universo da ciência do solo.

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A calagem consiste em uma das principais estratégias para aumento da produtividade em solos ácidos de regiões tropicais e subtropicais. Além disso a técnica possui reconhecido papel no aumento do sequestro de C na agricultura.

A calagem consiste em uma das principais estratégias para aumento da produtividade em solos ácidos de regiões tropicais e subtropicais. Além disso a técnica possui reconhecido papel no aumento do sequestro de C na agricultura.

O solo, portanto, não é como um prato de comida onde adicionamos o alimento e ele estará prontamente disponível para ser ingerido. Ele é um sistema complexo que depende de inúmeros fatores para se propiciar uma boa nutrição para as plantas e bons índices de produtividade. A agricultura é uma técnica utilizada a mais de 20 mil anos, e mesmo depois de tantos aperfeiçoamentos ainda temos um grande horizonte pela frente a ser desbravado. Dessa forma, o papel dos profissionais dessa área incrivelmente extensa da Agronomia, se torna fundamental para que possamos atingir produções de alimento cada vez maiores e ao mesmo tempo preservar a qualidade do ambiente para proporcionar um planeta mais saudável para as futuras gerações.

 

 

 

 

 

* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO. 

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Mestre em Agricultura (Uso e Manejo do Solo) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Trabalha na área de matéria orgânica do solo com enfoque em plantio direto e sequestro de Carbono.

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