Calagem superficial: funciona mesmo?

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Agropró Calagem superficial funciona mesmo

No Brasil, onde cerca de 70% das terras agricultáveis são consideradas ácidas (Quaggio, 2000), a calagem tem se tornado uma prática fundamental para corrigir os baixos valores de pH e as altas concentrações de Al+3. A prática tem sido aplicada nos solos de duas principais maneiras:

1) Incorporada, com aplicação seguida de operações de aração e gradagem;

2) Superficial, com aplicação sobre a superfície do solo sem revolvimento.

Como o calcário de maneira geral apresenta baixa solubilidade, a calagem incorporada tem sido uma opção muito utilizada por muitos agricultores. No entanto, diversos trabalhos têm demonstrado a eficiência da calagem superficial, que possui a vantagem de não comprometer a estrutura do solo pelo distúrbio. A seguir, veremos um pouco sobre como essa opção de calagem pode ser interessante para você.

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Figura 1: pH dos solos no mundo. (IGBP-DIS, 1998)

Por que incorporar o calcário pode ser uma má ideia?

Como vimos em diversos artigos aqui no blog, o revolvimento do solo causa a quebra dos agregados, expondo a matéria orgânica previamente protegida em seu interior a processos de decomposição, causando desestruturação do solo, perda dos estoques de C e erosão (Tivet et al., 2013).

Ao incorporar o calcário, o distúrbio causado pela incorporação pode potencializar a decomposição da matéria orgânica, uma vez que a aplicação do calcário normalmente estimula a atividade microbiana do solo (Aye et al., 2016).

No trabalho desenvolvido por Caires et al. (2006) comparando ambos os métodos de calagem (incorporada e superficial), os autores demonstraram perdas no conteúdo de matéria orgânica devido à incorporação do calcário, enquanto o mesmo não ocorreu quando a calagem foi aplicada superficialmente. Da mesma forma, no trabalho desenvolvido por Inagaki et al. (2016), os autores demonstraram que a longo prazo, a calagem superficial consiste em uma melhor alternativa para melhorar os estoques de C do solo, potencializar a produtividade e melhorar a sua atividade biológica. No trabalho desenvolvido por Yagi et al. (2014), os autores demonstraram que a tentativa de aliviar a compactação do solo pela calagem incorporada é restrita a efeitos de curto prazo de poucos meses, sendo que após esse período a densidade do solo volta ao mesmo nível anterior à calagem. Fidalski et al. (2015) também demonstram que a calagem incorporada não apresenta vantagens econômicas em relação à superficial, não havendo respostas de produção das culturas significativas para a incorporação do calcário.

Dessa forma, a impressão de que o revolvimento do solo traz benefícios em produção pode ser ilusório, e os efeitos a longo prazo podem ser amargos para a qualidade do solo.

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Figura 2: Aplicação incorporada do calcário, com operações de revolvimento. Foto: FIB Bauru

Calagem superficial corrige o subsolo?

O fato do calcário possuir baixa solubilidade é o principal motivo da maior parte das pessoas duvidar da capacidade da calagem superficial corrigir o solo em suas camadas mais profundas. No entanto, em áreas sob sistema plantio direto e até mesmo em pastagens degradadas, diversos trabalhos têm demonstrado a capacidade da técnica em corrigir a acidez do solo em subsuperfície. No trabalho desenvolvido por Joris et al. (2016) na conversão de uma pastagem degradada para cultivo em sistema plantio direto (SPD), os autores demonstraram a superioridade da calagem superficial em relação a incorporada no retorno econômico. Além disso, diversos trabalhos têm mostrado efeitos da calagem superficial na correção da acidez do solo em até 60 cm de profundidade (Caires et al., 1999; Caires et al., 2000; Caires et al., 2001; Caires et al., 2002; Caires et al., 2008).

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Figura 3: Aplicação superficial do calcário, sem revolvimento. Foto: Revista Campo e Negócios

Considerações finais

A incorporação do solo ainda é uma opção recomendada em áreas de solos muito pobres e com problemas de compactação. Na conversão de áreas de plantio convencional para plantio direto, a calagem incorporada ainda continua sendo uma opção viável, já que o solo já se encontra em más condições. No entanto, em áreas de plantio direto já estabelecidas, com solo de boa qualidade, a calagem superficial tem se demonstrado uma opção de grande eficiência até mesmo para corrigir o solo em profundidade. Dessa forma, a opção pela aplicação do calcário em superfície pode ajudar tanto na qualidade do solo, melhorando a rentabilidade do produtor, quanto na preservação da sua estrutura e da proteção da matéria orgânica.

E você, sabe mais aspectos importantes sobre a calagem em solos agrícolas? Compartilhe suas experiências conosco.

Referências

Aye, N.S., Sale, P.W., Tang, C., 2016. The impact of long-term liming on soil organic carbon and aggregate stability in low-input acid soils. Biology and Fertility of Soils, 1-13.

Caires, E., Banzatto, D., Fonseca, A., 2000. Calagem na superfície em sistema plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo 24, 161-169.

Caires, E., Barth, G., Garbuio, F., 2006. Lime application in the establishment of a no-till system for grain crop production in Southern Brazil. Soil and Tillage Research 89, 3-12.

Caires, E., Barth, G., Garbuio, F., Kusman, M., 2002. Correção da acidez do solo, crescimento radicular e nutrição do milho de acordo com a calagem na superfície em sistema plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do solo 26, 1011-1022.

Caires, E., Fonseca, A., Feldhaus, I., Blum, J., 2001. Crescimento radicular e nutrição da soja cultivada no sistema plantio direto em resposta ao calcário e gesso na superfície. Revista Brasileira de Ciência do Solo 25, 1029-1040.

Caires, E.F., Barth, G., Garbuio, F.J., Churka, S., 2008. Soil acidity, liming and soybean performance under no-till. Scientia Agricola 65, 532-540.

Caires, E.F., Fonseca, A., Mendes, J., Chueiri, W., Madruga, E., 1999. Produção de milho, trigo e soja em função das alterações das características químicas do solo pela aplicação de calcário e gesso na superfície, em sistema de plantio direto. Revista Brasileira de Ciência do Solo 23, 315-327.

Fidalski, J., Yagi, R., Tormena, C.A., 2015. Revolvimento Ocasional e Calagem em Latossolo Muito Argiloso em Sistema Plantio Direto Consolidado. Revista Brasileira de Ciência do Solo 39, 1483-1489.

Inagaki, T.M., Sá, J.C.d.M., Caires, E.F., Gonçalves, D.R.P., 2016. Lime and gypsum application increases biological activity, carbon pools, and agronomic productivity in highly weathered soil. Agriculture, Ecosystems and Environment 231, 156–165.

Joris, H.A.W., Caires, E.F., Scharr, D.A., Bini, Â.R., Haliski, A., 2016. Liming in the conversion from degraded pastureland to a no-till cropping system in Southern Brazil. Soil and Tillage Research 162, 68-77.

Quaggio, J.A., 2000. Acidez e calagem em solos tropicais. Instituto Agronômico.

Tivet, F., Sá, J.C.d.M., Lal, R., Briedis, C., Borszowskei, P.R., dos Santos, J.B., Farias, A., Eurich, G., da Cruz Hartman, D., Junior, M.N., 2013. Aggregate C depletion by plowing and its restoration by diverse biomass-C inputs under no-till in sub-tropical and tropical regions of Brazil. Soil and tillage research 126, 203-218.

Yagi, R., Fidalski, J., Tormena, C.A., 2014. A incorporação de calcário em sistema plantio direto consolidado reduz o estoque de carbono em macroagregados do solo. Ciência Rural 44, 1962-1965.

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Mestre em Agricultura (Uso e Manejo do Solo) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Trabalha na área de matéria orgânica do solo com enfoque em plantio direto e sequestro de Carbono.

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