Fertilizantes – preços baixos para quem?

2
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 0 Flares ×

O ano de 2015 foi um ano de queda nos preços internacionais dos principais fertilizantes agrícolas, apesar dessa queda ter sido toda ofuscada pela desvalorização do real frente ao dólar. E o ano de 2016 não começou diferente.

No cenário internacional, os preços da ureia, do fosfato diamônio e do potássio apresentaram quedas relevantes, inclusive se considerarmos os preços FOB nos portos brasileiros. Um exemplo claro disso é o Potássio, que tem girado ao redor de 250 a 265 dólares a tonelada nos portos brasileiros nesse final de janeiro e início de fevereiro. Se olharmos somente em 2016, os preços já apresentaram queda da ordem de 5% e se compararmos com o mesmo período de 2015 podemos notar valores inferiores em mais de 25%.

Infelizmente em razão do momento atual da economia essas baixas não se refletem para o produtor por duas razões básicas: a desvalorização cambial e as empresas estrangeiras que atuam nesses mercados.

A desvalorização cambial praticamente acabou com qualquer possibilidade de o produtor brasileiro comprar fertilizantes a preços 25% menores que em 2015, o que seria um grande trunfo para as margens de rentabilidade na produção agrícola. Observe os preços do potássio em dólares no mercado internacional (Gráfico 1) e logo na sequência os mesmos preços históricos no mercado internacional para o potássio, porém em reais (Gráfico 2), perceba a olho nu a diferença.

Sem título1

Gráfico 1 – Preço do potássio no Mar Negro em dólares

Sem título

Gráfico 2 – Preço do potássio no Mar Negro convertido em reais

Ao passo que para economias de moeda forte nesse período os valores para o potássio recuaram, no Brasil e em outros mercados emergentes, onde as moedas desvalorizaram em relação ao dólar, os preços aumentaram consideravelmente.

Num primeiro momento a impressão é de que isso está sendo extremamente prejudicial ao produtor, porém também não podemos esquecer que o mesmo “dólar alto” que desfavorece os preços dos insumos, favorece o preço final de venda da soja, bem como de outros produtos, ou seja, no final das contas o problema aparentemente se equilibra.

Mas não é tão simples assim. Se vivêssemos sozinhos no mundo, seria equilibrado. Quando os preços dos insumos em dólares ficam menores, isso significa que para o produtor norte-americano o custo de sua produção será razoavelmente inferior. Logo, ele poderá vender a soja, por exemplo, a preços menores que ainda terá um lucro, por menor que seja. E todos nós sabemos o que ocorre se o produtor norte-americano tem acesso a preços menores de venda, já que a referência mundial para a maioria dos grãos é a Bolsa de Chicago.

O segundo ponto levantado é a questão de que a grande maioria das empresas que atuam no setor de fertilizantes é estrangeira. Num primeiro momento isso aparenta ser prejudicial ao negócio do produtor nacional, pois a impressão que temos é que essas empresas compram em valores baixos, cotados em dólares, e vendem em valores altos, cotados em reais. Mas isso na realidade não é muito simples.

A maioria das empresas de fertilizantes tem relatado perdas com o mercado de fertilizantes na América do Sul no último trimestre de 2015, pois ao mesmo tempo que não conseguem repassar a queda do preço dos insumos em dólares ao produtor, no momento em que concretizam a venda, surge a dificuldade de remeter esses valores ao exterior com ganhos, já que os muitos reais obtidos aqui se transformam em poucos dólares lá fora.

Resumo da ópera: se o produtor acaba não sendo beneficiado, a indústria muitas vezes também não é beneficiada, pois vive e convive no mesmo ambiente de negócios, ambos estão expostos aos mesmos fatores econômicos e sofrem com as interferências cambiais e reflexos de políticas econômicas deficientes.

Um exemplo claro disso foram os últimos relatórios trimestrais da Yara International e da Potash Corp. com ambas as empresas apontando previsões mais difíceis para 2016 e sendo principalmente impactadas pelo mercado sul-americano.

No final das contas as lições que precisamos tirar dessa análise é que o mercado de commodities agrícolas é internacionalizado e se nesse momento o dólar elevado está salvando a lavoura, mesmo com os custos em alta, no futuro poderemos ver o inverso caso o dólar desvalorize em uma reta final de safra, onde os custos acabariam sendo elevados em reais.

Portanto quando falamos de produzir no Brasil, volto ao assunto do artigo anterior, onde além de plantar soja, milho, trigo, café, açúcar, algodão; criar boi para engorda ou praticamente qualquer outra atividade agropecuária, precisamos também cultivar uma atividade financeira, já que a maior parte de nossa produção acaba sendo destinada ao exterior e está exposta aos ricos econômicos e financeiros mundiais. Sempre digo: não basta cultivar bem, é preciso comercializar bem.

 

 

* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO. 

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 0 Flares ×

Sobre o Autor

Atua no mercado financeiro agropecuário desde 2007 como Operador de Commodities em corretoras nacionais e multinacionais. É profissional certificado pela ANCOR (Associação Nacional das Corretoras), pelo PQO (Programa de Qualificação Operacional) da BM&FBovespa e devidamente autorizado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para atuar no mercado financeiro. Hoje, Sócio-proprietário da Priore Investimentos, presta serviços de consultoria financeira, operações de hedge no mercado de commodities agrícolas e câmbio. Saiba mais em: www.prioreinvestimentos.com.br

Comentários no Facebook