O Impacto da utilização de inseticidas sobre polinizadores

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Por Thiago Rutz, engenheiro agrônomo CREA-PR 151243/D

Os polinizadores são peças fundamentais no que diz respeito à sua função em agroecossistemas e a manutenção de rendimentos estáveis das principais culturas de importância econômica. No Brasil, de 141 culturas produzidas, cerca de 85 delas dependem de polinizadores; quase um terço destas apresenta uma dependência grande ou essencial por polinizadores, gerando contribuição econômica de quase 30% (aproximadamente US$12 bilhões) do valor total da produção agrícola anual das culturas dependentes (totalizando quase US$45 bilhões) (GIANNINI et al., 2015b).

Redução na população de polinizadores

Com a crescente utilização de pesticidas na agricultura, pesquisadores começaram a perceber uma constante redução na população de alguns polinizadores, o que pode ameaçar ou até mesmo inviabilizar a produção de culturas como, por exemplo, melancia, maracujá e abóbora, que dependem exclusivamente de mamangavas e abelhas para o processo de formação do fruto e da semente (GIANNINI et al., 2015a).

Mas o que pode ser a causa dessa redução? Exposição a pesticidas, mudanças no habitat natural, nutrição deficiente, doenças, parasitas e condições extremas do clima podem trazer riscos aos polinizadores. Uma considerável quantia de estudos científicos conferem essa queda à uma classe de inseticidas bastante utilizada: os neonicotinoides (WALKER; WU, 2017). Antes, vamos entender do que se tratam esses inseticidas.

Como agem os inseticidas e Acaricidas

Segundo o Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC), os Inseticidas e Acaricidas podem ser divididos em cinco grupos de acordo com o mecanismo de ação. Os neonicotinoides agem no sistema nervoso dos insetos, mais especificamente são classificados como agonistas nicotínicos de receptores de acetilcolina (mais informações em https://www.irac-br.org/modo-de-ao-de-inseticidas -e-acaricidas). São utilizados comercialmente para o controle de cigarrinhas, pulgões e mosca branca em diversas culturas, como milho, soja, trigo, canola e algodão, possuindo sete ingredientes ativos (Acetamiprido, Clotianidina, Dinotefurano, Imidacloprido, Nitempiram, Tiacloprido e Tiametoxam), com cerca de 100 diferentes formulações até o momento. Os neonicotinoides (classe toxicológica III – medianamente tóxico) vem de melhoramentos da nicotina e se tornaram amplamente utilizados na proteção de plantas justamente por serem considerados por órgãos especializados como mais seletivos que piretroides, carbamatos e organofosforados (classe toxicológica II – altamente tóxico) (BRIDI et al., 2018).

Embora lançados mais recentemente e serem considerados de média toxicidade, os neonicotinoides podem afetar as abelhas a nível de colônia, fazendo com que estas visitem menos as culturas onde esse inseticida foi aplicado, tendo como resultado uma oferta reduzida de serviços de polinização e queda na produção de sementes em maçã, como exemplo (STANLEY et al., 2015). Além disso, esses químicos são muito móveis no solo e podem persistir muito tempo ativos contaminando o ambiente. O ingrediente ativo Imidacloprido foi detectado em 89% de amostras de água próximas a regiões de agricultura na Califórnia , EUA (STARNER; GOH, 2012). Levando em consideração o Manejo Integrado de Pragas (MIP), o uso profilático dessas substâncias em tratamento de sementes, por exemplo, faz com que princípios básicos sejam quebrados inviabilizando a consolidação dele (WALKER; WU, 2017).

Como reduzir o impacto?

É preciso que os polinizadores (e outros insetos não-alvo) sejam submetidos a efeitos decrescentes da toxicidade e exposição reduzida a esses inseticidas (POTTS et al., 2016). Porém, precisamos também ter em mente que esses produtos muitas vezes não possuem substitutos diretos no mercado, exigindo do produtor um tempo de adequação para fazer a substituição dessas moléculas por outras de menor impacto ambiental. Um produto não perde sua eficácia de maneira rápida, mas pode ter seu custo de oportunidade reduzido devido a um menor efeito residual quando comparado com outras alternativas disponíveis no mercado, resultando na necessidade de maior número de aplicações e maior custo de operação (RANGEL et al., 2014).

Apesar de ser um tema muitas vezes polêmico e controverso, é evidente e clara a necessidade cada vez mais racional e sustentável principalmente do controle químico realizado na agricultura. Há urgência em discutir-se esses assuntos no sentido de dirigir políticas públicas baseadas em evidência científica, deixando de lado interesses exclusivamente econômicos, visto que se tratam de recursos naturais escassos comum a toda humanidade.  

REFERÊNCIAS

BRIDI, R. et al. LC-MS/MS Analysis of Neonicotinoid Insecticides: Residue Findings in Chilean Honeys. Ciência e Agrotecnologia, v. 42, n. 1, p. 51–57, fev. 2018.

GIANNINI, T. C. et al. Crop Pollinators in Brazil: A Review of Reported Interactions. Apidologie, v. 46, n. 2, p. 209–223, mar. 2015a.

GIANNINI, T. C. et al. The Dependence of Crops for Pollinators and the Economic Value of Pollination in Brazil. Journal of Economic Entomology, v. 108, n. 3, p. 849–857, 1 jun. 2015b.

POTTS, S. G. et al. Safeguarding Pollinators and Their Values to Human Well-Being. Nature, v. 540, n. 7632, p. 220–229, dez. 2016.

RANGEL, L. E. P. et al. Uso de Neonicotinoides no Brasil – situação atual dos produtos registrados. 2014. Disponível em: <http://www.alice.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1020643>. Acesso em: 27 maio. 2020.

STANLEY, D. A. et al. Neonicotinoid Pesticide Exposure Impairs Crop Pollination Services Provided by Bumblebees. Nature, v. 528, n. 7583, p. 548–550, dez. 2015.

STARNER, K.; GOH, K. S. Detections of the Neonicotinoid Insecticide Imidacloprid in Surface Waters of Three Agricultural Regions of California, USA, 2010-2011. Bulletin of Environmental Contamination and Toxicology, v. 88, n. 3, p. 316–321, mar. 2012.

WALKER, L.; WU, S. Pollinators and Pesticides. In: STEIER, G.; PATEL, K. K. (Ed.). International Farm Animal, Wildlife and Food Safety Law. Cham: Springer International Publishing, 2017. p. 495–513.

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