Plantando dólar para não colher real

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A valorização do dólar ante o real não é novidade para praticamente ninguém nesse início de 2016 visto que esse processo já se iniciou com maior intensidade em 2014 e vem seguindo seu rumo desde então.

Em anos anteriores foi possível, em determinadas atividades, safras e culturas, se beneficiar extremamente bem desse movimento de alta na moeda norte-americana, que serve de base para precificação da maioria das commodities rurais e agrícolas do mundo. No entanto ao longo dos últimos meses, mais especificamente na safra recente temos visto que essa possibilidade de benefício já não tem sido tão grande assim ou ao menos não tem mais elevado o ânimo do produtor.

A razão principal para isso é que a maior parte ou a quase totalidade dos custos do agronegócio estão atrelados ao dólar e aos efeitos da volatilidade da moeda em relação ao real. Por isso a margem de lucro bruta nesta safra tende a ser menor e tende a permanecer assim na próxima, pois as estimativas e projeções atuais, apesar de não serem certeza de concretização, apontam todas para dólar em patamares elevados se comparado ao real e também apontam para prováveis preços mais baixos no agronegócio, com exceção de uma ou outra cultura.

Colheita de soja na região de Ohio - EUA.

Colheita de soja na região de Ohio – EUA.

Maior exemplo disso é a soja nos Estados Unidos hoje. A margem do agricultor está nos menores níveis dos últimos anos, pois o preço da soja de 2013 para cá caiu absurdamente, da ordem de 50% e os custos naturalmente subiram, pois apesar de boa parte dos insumos serem produzidos por lá, a maior parte dos fertilizantes são oriundos da Ásia e da Europa.

Em situação mais favorável está o produtor brasileiro, que apesar dos pesares, ainda vai poder se beneficiar da questão cambial na safra atual. Por mais que em dólares o preço da soja, do milho, do trigo e de demais commodities agrícolas tenha caído, em reais o produtor ainda estará recebendo um preço melhor do que no início da safra.

É justamente aqui que entra um ponto chave para a produção agrícola nesse momento econômico atual: a precificação do rebanho ou da lavoura toda dolarizada. É importante colocar em prática essa análise de forma comparativa para evitar o risco de sofrer grandes impactos negativos com o movimento cambial. Se você possui condições de avaliar que sua lavoura tende a ter resultado positivo calculando os custos em dólares e a receita, o valor da sua venda também em dólar, isso é bom sinal. É sinal de que você estará mais bem preparado para cenários contrários que o câmbio possa apresentar.

Portanto plantar sua safra “em dólar” e pensar em sua colheita “em dólar” é hoje o caminho mais seguro para garantir ou menos buscar um resultado satisfatório.

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Outro ponto igualmente interessante dentro dessa avaliação é buscar uma diversificação de produção, seja dentro da lavoura, seja dentro da pecuária, que proporcione a possibilidade de ganhos em ambas as direções, com produto dolarizado e com produto baseado em reais. Um exemplo disso é o produtor rural que cultiva soja e ao mesmo tempo administra um plantel de pecuária leiteira. Caso o dólar se mantenha em níveis elevados ao final de sua safra, a tendência é de a soja apresentar resultado positivo com maior intensidade, ao passo que se o dólar enfraquecer ante ao real, a tendência é a pecuária de leite apresentar um resultado satisfatório, já que praticamente todo o consumo de leite é nacional.

Concluindo, essas análises comentadas aqui naturalmente são superficiais, pois levam em conta poucos aspectos dos mercados em questão, mas a intenção é justamente demonstrar que precisamos observar os impactos gerados por oscilações cambiais dentro de cada cadeia produtiva, seja de soja, trigo, milho, leite, carnes, etc. bem como seus pormenores, inclusive podendo fazer com que seus investimentos no campo não corram o risco de perder valor ao longo dos dias dentro de um cenário econômico de inflação elevada e de dólar elevado.

 

* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO.

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Sobre o Autor

Atua no mercado financeiro agropecuário desde 2007 como Operador de Commodities em corretoras nacionais e multinacionais. É profissional certificado pela ANCOR (Associação Nacional das Corretoras), pelo PQO (Programa de Qualificação Operacional) da BM&FBovespa e devidamente autorizado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para atuar no mercado financeiro. Hoje, Sócio-proprietário da Priore Investimentos, presta serviços de consultoria financeira, operações de hedge no mercado de commodities agrícolas e câmbio. Saiba mais em: www.prioreinvestimentos.com.br

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