Pragas resistentes à tecnologia Bt na Soja

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Por Thiago Rutz, engenheiro agrônomo CREA-PR 151243/D

Um dos aspectos mais importantes no contexto fitossanitário da soja é relacionado ao complexo de lagartas. Dentre os indivíduos deste grupo, a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e a lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens) são os insetos-praga mais comuns da soja no Brasil (CONTE et al., 2015). O principal dano causado é a desfolha que, em casos extremos pode chegar a 100% (HOFFMANN-CAMPO et al., 2000).

O controle de insetos praga na agricultura é realizado principalmente com uso de inseticidas químicos, fazendo com que a intensa utilização destes produtos conduza a uma série de problemas, incluindo a poluição ambiental e aumento dos efeitos para a saúde humana (BRAVO et al., 2011). Na busca para reduzir a dependência do uso de químicos, diminuindo o número de pulverizações destes na lavoura, surgem as culturas Geneticamente Modificadas (GM’s) produzindo toxinas de Bacillus thuringiensis (Bt) para controle de insetos (TABASHNIK; VAN RENSBURG; CARRIÈRE, 2009).

Ação da tecnologia Bt

Os genes que codificam a síntese destas toxinas são provenientes de B. thuringiensis, uma bactéria gram-positiva formadora de esporos com propriedades entomopatogênicas (BRAVO; GILL; SOBERON, 2007). Estágios larvais de diferentes ordens de insetos são suscetíveis às toxinas produzidas pelas bactérias do gênero Bt, cujo modo de ação é a ligação específica destas com certos receptores presentes no intestino médio (mesêntero) do inseto alvo levando a formação de poros nas células das Vesículas da Borda Escovada da Membrana Apical (BBMV), onde há ruptura do tecido seguido por septicemia bacteriana no hemocelo (BRAVO et al., 2011; MONNERAT et al., 2015).

Culturas Bt e a resistência das pragas

A área plantada com culturas Bt em todo o mundo aumentou de 1,1 milhões de hectares em 1996 para 66 milhões de hectares em 2011, com um total acumulado de mais de 420 milhões de hectares plantados (TABASHNIK; BRÉVAULT; CARRIÈRE, 2013). No Brasil, o primeiro lançamento comercial de uma cultura transgênica para controle de insetos foi o algodão Bt no ano de 2005 (MONNERAT et al., 2015). Já a primeira soja Bt foi comercializada no país em 2010 contendo o gene Cry codificando a proteína tóxica Cry1Ac e tolerância à molécula glifosato na mesma planta (BERNARDI et al, 2012; SILVA et al., 2016). 

A introdução de variedades transgênicas alterou completamente o manejo de pragas, principalmente o que diz respeito à utilização de inseticidas. Constitui o maior benefício dos transgênicos a redução do uso de pesticidas utilizados em campos onde a soja, milho e algodão são cultivados, que em conjunto com outras práticas conservacionistas, a exemplo do plantio direto, tem impacto positivo no uso e manejo do solo, qualidade da água, reduzindo o volume de escoamento superficial e diminuindo a sedimentação e contaminação por produtos químicos agrícolas, tendo em vista que a agricultura é a maior causadora de redução da qualidade de águas superficiais (ERVIN et al, 2010). No entanto, a maior ameaça para o uso de culturas Bt é o aparecimento de insetos resistentes às toxinas expressas por essas plantas (BRAVO et al., 2011).

Qual o risco?

Concomitante ao crescimento da utilização das culturas transgênicas houve o desenvolvimento de resistência de insetos-praga devido à alta exposição de populações desses indivíduos a toxinas, fato que pode reduzir a eficácia de proteínas inseticidas produzidas por culturas Bt gerando falhas no controle das pragas alvo (TABASHNIK; VAN RENSBURG; CARRIÈRE, 2009). A avaliação da herança e frequência inicial da resistência são ferramentas a serem utilizadas para predizer o risco de sua evolução e melhorar as estratégias para sustentar a eficácia de culturas Bt (TABASHNIK; BRÉVAULT; CARRIÈRE, 2013).

O controle de insetos por soja Bt tem sido particularmente eficaz para as principais espécies de lagartas (SILVA et al., 2014), no entanto, uma vez que esta é uma tecnologia relativamente nova para a cultura, mais informações sobre o impacto de sua utilização no agroecossistema, o monitoramento das populações de insetos alvo e as tomadas de decisão preventivas à uma possível evolução da resistência à campo se fazem necessárias.

REFERÊNCIAS

BERNARDI, O.; MALVESTITI, G. S.; DOURADO, P. M.; OLIVEIRA, W. S.; MARTINELLI, S.; BERGER, G. U.; OMOTO, C. Assessment of the high‐dose concept and level of control provided by MON 87701× MON 89788 soybean against Anticarsia gemmatalis and Pseudoplusia includens (Lepidoptera: Noctuidae) in Brazil. Pest management science, v. 68, n. 7, p. 1083-1091, 2012.

BRAVO, A.; GILL, S. S.; SOBERON, M. Mode of action of Bacillus thuringiensis Cry and Cyt toxins and their potential for insect control. Toxicon, v. 49, n. 4, p. 423-435, 2007.

BRAVO, A.; LIKITVIVATANAVONG, S.; GILL, S. S.; SOBERÓN, M. Bacillus thuringiensis: a story of a successful bioinsecticide. Insect biochemistry and molecular biology, v. 41, n. 7, p. 423-431, 2011.

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ERVIN, D. E.; CARRIÈRE, Y., COX, W. J., FERNANDEZ-CORNEJO, J., JUSSAUME JR, R. A., MARRA, M. C., ZILBERMAN, D. The impact of genetically engineered crops on farm sustainability in the United States. Washington DC: National Research Council, 2010. p. 69-133.

HOFFMANN-CAMPO, C. B.; CORRÊA-FERREIRA, B. S.; PANIZZI, A. R.; MOSCARDI, F.; OLIVEIRA, L. J.; SOSA-GÓMEZ, D. R.; OLIVEIRA, E. D. Percevejos da soja e seu manejo integrado. Londrina: Embrapa Soja, 2000. p. 11-13.

MONNERAT, R.; MARTINS, E.; MACEDO, C. M.; QUEIROZ, P.; PRAÇA, L.; SOARES, C. M. S.; MOREIRA, H. M.; GRISI, I. G.; SILVA, J. S.; SOBERON, M. S.; BRAVO, A. Evidence of field-evolved resistance of Spodoptera frugiperda to Bt corn expressing Cry1F in Brazil that is still sensitive to modified Bt toxins. PLoS One, v. 10, n. 4, p. 1-12, 2015.

SILVA, G. V.; BUENO A. F.; BORTOLOTTO, O. C.; SANTOS, A. C.; POMARI-FERNANDES, A. Biological characteristics of black armyworm Spodoptera cosmioides on genetically modified soybean and corn crops that express insecticide Cry proteins. Revista Brasileira de Entomologia, 2016.

SILVA, G. V.; PASINI A.; BUENO A. F.; BORTOLOTTO, O. C.; BARBOSA, G. C.; STOPA, Y. K. No impact of Bt soybean that express Cry1Ac protein on biological traits of Euschistus heros (Hemiptera, Pentatomidae) and its egg parasitoid Telenomus podisi (Hymenoptera, Platygastridae). Revista Brasileira de Entomologia, v. 58, n. 3, p. 285-290, 2014.

TABASHNIK, B. E.; BRÉVAULT, T.; CARRIÈRE, Y. Insect resistance to Bt crops: lessons from the first billion acres. Nature biotechnology, v. 31, n. 6, p. 510-521, 2013.TABASHNIK, B. E.; VAN RENSBURG, J. B. J.; CARRIÈRE, Y. Field-evolved insect resistance to Bt crops: definition, theory, and data. Journal of economic entomology, v. 102, n. 6, p. 2011-2025, 2009.

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