Resistência de pragas na lavoura

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Por Thiago Rutz, engenheiro agrônomo CREA-PR 151243/D

A utilização de compostos químicos como agentes capazes de controlar insetos foi um grande avanço não só para a saúde pública, em relação a doenças como malária e dengue que possuem como vetores mosquitos Anopholes sp. E Aedes aegypti, mas também no controle de insetos que causam danos econômicos em lavouras. O controle de insetos-praga na agricultura é realizada principalmente com uso de inseticidas químicos, fazendo com que a intensa utilização destes produtos conduza a uma série de problemas, incluindo a poluição ambiental e aumento dos efeitos para a saúde humana (BRAVO et al., 2011) . Além disso, a não utilização de uma rotação desses produtos no sentido de diversificar os mecanismos de ação empregados fazem com que muitos insetos-praga possam desenvolver tolerância ou até mesmo resistência a esses inseticidas. 

Pragas Resistentes e o MIP

De acordo com o Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas, conhecida pela sigla IRAC, a resistência é uma mudança hereditária na suscetibilidade de uma população da praga que se reflete na falha repetida de um produto de atingir o nível de controle esperado, quando utilizado de acordo com a recomendação para determinada espécie-praga. A evolução da resistência de pragas a pesticidas tem sido um dos grandes entraves em programas de MIP em diversas culturas a nível mundial. Dentre as consequências da resistência estão a aplicação mais frequente de produtos, uso de dosagens acima da recomendada no rótulo ou na bula do produto, uso indevido de mistura de produtos, e mudança de produto (geralmente para um produto mais caro e/ou mais tóxico) na tentativa de se obter um controle satisfatório de uma determinada praga (“IRAC-BR”, 2020). 

A resistência a inseticidas começou a receber a atenção científica que merecia após a introdução do DDT após a Segunda Guerra Mundial, quando cepas resistentes da mosca doméstica Musca domestica L. apareceram quase simultaneamente na Suécia e na Dinamarca em 1946, dos mosquitos Culex pipiens L. na Itália e Aedes sollicitans (Walker), na Flórida, do percevejo Cimex leuctularius L. no Havaí em 1947 e do piolho humano Pediculus humanus humanus L. na Coréia e no Japão em 1951 (METCALF, 1989). 

Como a resistência evolui?

Mas a pergunta que fica é: como a resistência evolui? O processo determinante para a evolução da resistência de insetos é a constante pressão de seleção por causa do uso de mesma tática ou agente de controle, o que favorece a sobrevivência de alguns insetos “pré-adaptados”, ou seja, daqueles que “carregam” alelos da resistência (Figura 1). Esse processo, com o passar das gerações da praga sobre pressão seleção aumenta a frequência de resistentes e, consequentemente, reduz a eficiência de controle (BARBOSA, 2016) . Os insetos possuem ciclo de vida curto e prole abundante, o que favorece o surgimento de populações com diferentes características genéticas. A propagação de resistência a inseticidas em populações de insetos está relacionada com a frequência de sua utilização e é resultante não apenas da pressão seletiva desses compostos tóxicos sobre estas populações, como das características herdadas das espécies de insetos envolvidas (MOREIRA; MANSUR; FIGUEIRA-MANSUR, 2013).

Figura 1 – Representação esquemática da evolução da resistência. Fonte: BARBOSA, 2016.

A redução da sensibilidade aos inseticidas por parte dos insetos pode ser causada por diferentes mecanismos: 1) modificações comportamentais, onde o inseto reconhece a presença do inseticida e evita contato com ele; 2) redução na penetração cuticular, associada a modificações na sua composição; 3) resistência metabólica, por aumento da capacidade de metabolização desses produtos, através de enzimas de detoxificação; e 4) modificação nos sítios alvos dos inseticidas (MOREIRA; MANSUR; FIGUEIRA-MANSUR, 2013). Esses mecanismos podem ser expressos sozinhos ou de maneira conjunta.

Com isso, a resistência a inseticidas pode ser manifestada através da resistência cruzada ou da resistência múltipla. A resistência cruzada refere-se aos casos em que um único mecanismo de resistência presente no inseto confere resistência a dois ou mais compostos químicos (produtos estes geralmente relacionados; por exemplo, deltametrina e permetrina, que são produtos do grupo dos piretróides). Já a resistência múltipla ocorre quando pelo menos dois diferentes mecanismos de resistência coexistentes no superinseto conferem resistência a dois ou mais compostos químicos (produtos estes geralmente não relacionados) (FRAGOSO, 2014). 

Como evitar?

O que pode ser feito para evitar que problemas com resistência de espécies extremamente polífagas como Spodoptera frugiperda, Helicoverpa armigera e Chrysodeixis includens possam acabar afetando o controle de pragas na lavoura? Pode-se implantar o que chamamos de MRI: Manejo de Resistência a Inseticidas. Na Figura 2, há um resumo do que se deve fazer para evitar que a resistência evolua em nossos cultivos, dando destaque ao Manejo Integrado de Pragas (MIP) como primeiro princípio a ser seguido.


Figura 2 – Recomendações para o manejo da resistência. Fonte: IRAC.

Vale lembrar que o MRI é uma prática que será muito mais efetiva se colocada em prática preventivamente, de maneira que evite-se manejos bem mais onerosos uma vez identificada a resistência de insetos a um determinado inseticida em campo. Menos aplicações ou menos frequentes reduzem a pressão de seleção do tempo, diminuem a taxa e a probabilidade de desenvolvimento de resistência. Se as aplicações de pesticidas forem adiadas até que um limiar econômico seja alcançado, isso reduzirá a pressão de seleção para resistência (KUNZ; KEMP, 1994) .

REFERÊNCIAS

BARBOSA, F. A. Milho e sorgo: inovações, mercado e segurança alimentar. [s.l: s.n.]

BRAVO, A. et al. Bacillus Thuringiensis: A Story of a Successful Bioinsecticide.

Insect Biochemistry and Molecular Biology, v. 41, n. 7, p. 423–431, jul. 2011.

FRAGOSO, D. B. Duro de matar: os superinsetos resistentes a inseticidas da agricultura! Disponível em: <https://docs.wixstatic.com/ugd/2bed6c_d1022d61fad84aa58e0941aa655fbec9.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2020.

IRAC-BR. Disponível em: <https://www.irac-br.org>. Acesso em: 12 jun. 2020.

KUNZ, S. E.; KEMP, D. H. Insecticides and Acaricides : Resistance and Environmental Impact. Revue Scientifique et Technique de l’OIE, v. 13, n. 4, p. 1249–1286, 1 dez. 1994.

METCALF, R. L. Insect Resistance to Insecticides. Pesticide Science, v. 26, n. 4, p. 333–358, 1989.

MOREIRA, M. F.; MANSUR, J. F.; FIGUEIRA-MANSUR, J. Resistência e Inseticidas: Estratégias, Desafios e Perspectivas no Controle de Insetos. In: Tópicos Avançados em Entomologia Molecular: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Entomologia Molecular. Rio de Janeiro: Itabajara da Silva Vaz Junior, 2013. p. 582.

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