Como escolher sua semeadora de plantio direto – parte 1

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Bom, considerando que está é minha primeira postagem sobre semeadora, acho interessante apresentar-me. Meu nome é Ruy Casão Júnior, possuo graduação em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1975), mestrado em Engenharia Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (1984) e doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (1996). Fui pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) de 01/1976 a 10/2003, sendo hoje aposentado, consultor em projetos do IAPAR e outras empresas. Trabalhei três anos como pesquisador em fitotecnia, três anos como coordenador de fazenda experimental e 22 anos como pesquisador em máquinas agrícolas. Fui diretor técnico e presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, consultor da FAO em países da África e Ásia.

Tenho experiência na área de Engenharia Agrícola, com ênfase em Projeto e Avaliação de Máquinas e Implementos Agrícolas, atuando principalmente nos seguintes temas: plantio direto, semeadoras adubadoras, equipamentos de tração animal, preparo do solo, equipamentos de manejo de vegetações e mecanização agrícola em geral. Ingresso como colunista deste blog, em favor da informação, do verdadeiro conhecimento, evolução das Máquinas e Implementos agrícolas como um todo. Estarei ativamente escrevendo e compartilhando minhas experiências profissionais com você leitor, a partir deste Blog. Começo com o tom introdutório do artigo: Como escolher sua semeadora de plantio direto – Parte 01

Como evoluíram, os principais fundamentos e o estado da arte dos equipamentos nacionais.

As máquinas semeadoras que fazem parte do complexo de equipamentos utilizados no sistema plantio direto, são consideradas de vital importância, devido serem responsáveis pela implantação da cultura no solo. Este artigo procura resgatar os fundamentos para a adequada escolha de seu equipamento, assim como relembrar alguns acontecimentos que determinaram sua evolução, mostrando o esforço para obter seu aperfeiçoamento, as dificuldades encontradas, com depoimentos de alguns dos importantes protagonistas desta aventura que foi viabilizar a mecanização da implantação das culturas no sistema plantio direto no Brasil.

Tipos e funções de máquinas semeadoras

No sistema de plantio direto (SPD) utilizado pela maioria das propriedades agrícolas brasileiras, existem predominantemente, dois tipos de semeadoras quanto a distribuição de sementes em fileiras: as de precisão e as de fluxo contínuo. MIALHE (2012) apresenta em sua obra de forma mais completa as diferentes opções de técnicas de plantio, subdividindo quanto ao preparo do solo de pré-plantio e a posição relativa dos órgãos de propagação.

As semeadoras de precisão são popularmente denominadas de “plantadeiras” caracterizam-se por distribuir sementes espaçadas a distâncias supostamente homogenias no sulco de semeadura. No Brasil, essas máquinas utilizam principalmente dosadores e componentes em contato com o solo que impedem que trabalhem a espaçamentos banner_260x400_blog_2 inferiores a 40 cm. Trabalham com culturas de sementes graúdas como milho, soja, feijão, algodão, mas também semeiam sementes miúdas como o sorgo, desde que distanciadas em média a mais 40 mm entre elas no sulco ou linha de semeadura e as de fluxo contínuo, popularmente chamadas de “semeadeiras” pelo fato de distribuir grande quantidade de sementes por comprimento de sulco, depositam no solo sem precisão de espaçamento entre elas. Normalmente semeiam trigo, aveia, arroz e sementes de forrageiras (CASÃO JUNIOR, 2006).

MUZILLI (2006) propõe que sob a ótica sistêmica, omanejo do solo no SPD implica na interação de práticas biológicas-culturais com práticas mecânico-químicas, pressupondo quatro princípios básicos:

  1. Adequação prévia do terreno;
  2. Revolvimento mínimo do solo;
  3. Diversificação de culturas e manutenção da cobertura vegetal permanente;
  4. Adoção de métodos integrados de controle fitossanitário.

Nesse contexto, uma semeadora de plantio direto deve promover o revolvimento mínimo do solo. As máquinas semeadoras devem cortar a palha sobre a superfície do solo, evitando assim, embuchamento nos demais componentes. Devem abrir um sulco para depositar o fertilizante na dosagem, posição e profundidade adequada. Este sulco deve ser fechado e em seguida aberto novamente para a deposição das sementes na dosagem, posição e profundidade desejada. Após isso, ele deve ser fechado com terra, retornando também a palha anteriormente retirada da linha de semeadura sobre o sulco e finalizar com uma adequada compactação do solo lateralmente às sementes, para que essas absorvam água durante seu processo de germinação e emergência (CASÃO JUNIOR & CAMPOS, 2004). Observa-se que para cumprir essas funções a semeadora deve possuir um conjunto de sistemas e componentes.

Os pioneiros

O sistema plantio direto (SPD) teve início comercialmente no Brasil no município de Rolândia – PR, pelo pioneirismo do produtor Herbert Bartz com a semeadora importada americana ALLIS CHALMERS em 1972. Contudo a adoção do sistema não superou 1 milhão de hectares no país até 1992 (FEBRAPDP, 2007). Poucos foram os pioneiros dessa época. Destaca-se o esforço da ICI em conjunto com as Instituições e produtores na década de 70.

Um momento de forte adoção do SPD deu-se nos Campos Gerais no PR a partir de 1976 com a liderança dos produtores Franke Dijkstra e Manoel Henrique Pereira. Essa iniciativa resultou na criação do Clube da Minhoca, Fundação ABC, FEBRAPDP e CAAPAS, servindo de inspiração para criação de diversos Clubes de Amigos da Terra e outras instituições disseminadas pelo Brasil (CASÃO JUNIOR et al, 2008). A figura 1 mostra pioneiros do SPD no IV Encontro Latino Americano de Plantio Direto na Palha.

Figura 1 – Produtores e técnicos pioneiros do SPD. Da esquerda para a direita: 10 Franke Dijkstra; 20 Herbert Bartz; 30 ?????; 40 Nonô Pereira; 40 Prof. Juca; 40 John Landers

Figura 1 – Produtores e técnicos pioneiros do SPD. Da esquerda para a direita: 1-Franke Dijkstra; 2-Herbert Bartz; 3- Manoel Pereira; 4-Nonô Pereira; 5- Prof. Juca; 6-John Landers.

MIALHE (2012) cita que foi publicado somente no período de 1976 a 1979 pela ABIMAQ/SINSIMAQ dados sobre a produção de semeadoras no país, onde pode-se visualizar que as semeadoras de plantio direto passaram a surgir nas estatísticas somente em 1978. Lamenta o autor sobre o segredo que é feito desses dados pelas empresas fabricantes, assim como o alheamento do Ministério da Agricultura de desenvolver políticas de base tecnológica na área de mecanização agrícola.

Nesta ocasião o IAPAR e o CNPT/EMBRAPA passaram a realizar pesquisas sistemáticas no SPD, surgindo em 1981 o primeiro livro do assunto (Plantio Direto no Estado do Paraná, figura 2) publicado pelo IAPAR com apoio da ICI.

Figura 2 - Plantio Direto no Estado do Paraná, circular 23.

Figura 2 – Plantio Direto no Estado do Paraná, circular 23.

O IAPAR concentrou grande esforço na pesquisa e difusão de práticas conservacionistas a partir de sua criação em 1972 e iniciou pesquisas com SPD em 1976 envolvendo uma grande equipe multidisciplinar. No RS foram grandes os esforços no desenvolvimento de componentes rompedores de solo pelo CNPT/EMBRAPA, servindo de modelo para as indústrias iniciarem a fabricação das primeiras máquinas. Aproveitaram-se as características construtivas da semeadora inglesa de fluxo contínuo BETTINSON-3D e os discos duplos desencontrados de origem canadense para construir as primeiras semeadoras, que na época eram especializadas em culturas de inverno e grãos finos.

José Antônio Portella pesquisador da EMBRAPA cita que “a ICI fez uma parceria com a EMBRAPA e SEMEATO trazendo o Laurie Richardson da Inglaterra em 1979 para ajudar a trabalhar com a BETTINSON, adequando-a para plantio direto. Assim, a SEMEATO e a EMBRAPA em 1979/80 criaram o primeiro protótipo da TD que vinha de triplo disco e a SEMEATO lançou a TD 220 (Fig. 3) e posteriormente popularizou-se a geração seguinte TD 300”. (CASÃO JUNIOR et al, 2008).

Figura 3 – Semeadora de fluxo contínuo TD 220.

Figura 3 – Semeadora de fluxo contínuo TD 220.

A SEMEATO foi à indústria líder neste processo com a TD, desenvolvida em 1980, sendo acompanhada pela IMASA, FANKHAUSER e LAVRALE. Produtores pioneiros e oficinas locais do PR e RS destacavam-se por realizar adaptações, principalmente na tentativa de semear culturas de verão, predominantemente a soja. Isso em função de que a máquina disponível nos anos 70 era a ROTACASTER que além de mobilizar exageradamente o solo, tinha baixo rendimento. O mercado no início dos anos 80 já dispunha de semeadoras de fluxo contínuo para o SPD principalmente da SEMEATO, IMASA, FANKHAUSER, MARCHESAN e BALDAN (CASÃO JUNIOR et al, 2008).

Cita-se que a década de 80 foi um período de estudos e laboratório, onde não havia uma definição clara de como uma semeadora de SPD deveria trabalhar. Os produtores e oficinas locais adaptavam semeadoras de precisão convencionais e de fluxo contínuo, transformando-as para o SPD, introduzindo disco de corte e componentes para abertura de sulco e deposição de fertilizante e sementes. Nesse processo as indústrias foram aperfeiçoando seus produtos e criando também semeadoras de precisão para o SPD (CASÃO JUNIOR et al, 2008).

Paulo Montagner ex-diretor de engenharia da SEMEATO conta que “na década de 80 a fábrica fornecia muitos componentes para adaptações lideradas por Franke e Nonô Pereira (Fig. 4a). Mas saindo de Ponta Grossa com outras condições de solo e cobertura, a máquina não tinha o mesmo desempenho. Tanto que o maior sofrimento foi encarar o SPD em Pato Branco no sudoeste do PR. Com os discos duplos desencontrados não era possível penetrar naquele solo argiloso, assim como, na região central do PR, no vale do rio Ivaí. Isto ocorreu de 1990 a 1993” (CASÃO JUNIOR et al, 2008).

“Os principais entraves para a expansão do SPD na década de 80 foram a falta de herbicidas eficientes ou o desconhecimento dos mesmos e as máquinas que ainda não estavam apropriadas, principalmente para trabalhar nas regiões de solos argilosos, os quais nos primeiros anos de adoção apresentavam adensamento superficial. O desenvolvimento da semeadora de precisão PAR da SEMEATO (Fig. 4b) no início dos anos 90 foi um marco importante, pois a TD e outras semeadoras de fluxo contínuo, não apresentavam o desempenho esperado na semeadura de soja”.

Semeadora PS6 da SEMEATO adaptada para plantio direto (Nonô Pereira)

Figura 4a-Semeadora PS6 da SEMEATO adaptada para plantio direto (Nonô Pereira)

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Figura 4b-Semeadora PAR da SEMEATO (modelo do início dos anos 90)

Período de evolução e expansão da adoção

Havia o mito de que a semeadora para o SPD deveria ser pesada, com mais do que 350 kg por unidade de semeadura, principalmente pelo fato de usarem discos duplos desencontrados como rompedores de solo, e que nos solos argilosos com adensamento superficial era praticamente impossível realizar a semeadura.  Assim a adoção do SPD mecanizado foi fortalecida a partir de 1992 onde muitas indústrias apresentaram novas máquinas, especialmente as semeadoras de precisão, sempre perseguindo a expansão da cultura de soja, mas sendo usadas também nas demais culturas.

Pedro Fankhauser (presidente da FANKHAUSER) cita que “A semeadora de plantio direto tem que ter um peso mínimo, mas que não seja uma coisa absurda. Na época havia a ideia de semear sobre terras degradadas. O produtor hoje afofa a terra para iniciar o SPD. Existiam duas correntes de agricultores: os que adequavam o terreno para iniciar o SPD e outra que queria plantar da forma mais barata possível” (CASÃO JUNIOR et al, 2008). A figura  5 mostra semeadoras da FANKHAUSER em operação.

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Figura 5 – Semeadoras de precisão da FANKHAUSER semeando no Oeste do RS.

João de Freitas da Marchesan cita que a partir de 1992 a fábrica alinhou todos os rompedores de solo, posicionando o disco de corte na mesma linha dos discos duplos desencontrados para abertura de sulco do adubo e sementes. “Nesta época havia muitas oficinas realizando adaptações nas máquinas a pedido dos produtores. O problema identificado era a falta de peso na linha. A máquina, com o depósito cheio de fertilizante semeava adequadamente, mas quando este esvaziava as sementes ficavam expostas. O chassi, por sua vez, passou a não suportar os esforços solicitantes, pois possuía uma seção transversal de 70 x 70 mm.

Em 1994 surgiu outra novidade, as linhas foram posicionadas em zigue zague, pois com o aumento da palhada os problemas de embuchamento estavam se tornando muito freqüentes. Nesta ocasião se a fábrica possuía 6 versões para o SPD, passou para 12 versões, ou seja, somente com discos duplos desencontrados; com disco de corte e discos duplos; disco de corte e haste sulcadora; com todos esses componentes opcionais e ainda com a possibilidade de vir com duas barras e posicionar as linhas em zigue zague. O modelo PST2 D44 era a mais completa e a mais famosa.

Existia também o modelo Itapeva a D56, mais reforçada segundo as sugestões do produtor Maurício Sakai. Assim, em 1998 tomou-se a decisão de reforçar o chassi com barras porta ferramenta de 100 x 100 mm, surgiu aí a PST3. Isto exigiu trocar todas as peças fundidas de engate na máquina. Ao mesmo tempo, houve evolução no sistema de controle de profundidade, regulagens versáteis, caixa de câmbio, caixas de plástico e máquinas maiores. O mercado absorveu este custo, pois estava pedindo essas mudanças.

As máquinas eram fabricadas com número par de linhas e isto dificultava para o produtor transforma-las de soja a 45 cm de espaçamento para milho a 90 cm. Assim, passou-se a fabricar semeadoras com número ímpar de linhas. A PST4 já nasceu com número ímpar de linhas”. (CASÃO JUNIOR et al, 2008). Detalhamos esse depoimento de João de Freitas, pois mostra o que ocorreu na maioria dos fabricantes na década de 90. As figuras 6a e 6b mostram a estrutura de uma semeadora em montagem e a semeadora de precisão COP de propriedade de Herbert Bartz em Rolândia PR.

 Figura 6 – a) Chassi em montagem

Figura 6a-Chassi em montagem

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Figura 6b-Semeadora de precisão COP.

Hoje, fico por aqui. Volto em breve com a continuação do artigo, novas informações e aprofundamentos.

 

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* Opiniões expressas nesse ambiente são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente representam o posicionamento da AGROPRO.

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Sobre o Autor

Eng. Agrônomo e Doutor em Eng. Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas. Foi pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), consultor em projetos do IAPAR e outras empresas. Trabalhou como pesquisador em fitotecnia, como coordenador de fazenda experimental e 22 anos como pesquisador em máquinas agrícolas. Foi diretor técnico e presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio, consultor da FAO em países da África e Ásia.

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